domingo, 17 de fevereiro de 2008

Madame não recebe visitas

























Minhas sobrancelhas voltaram a crescer. Não que tivessem por algum motivo em algum dia cessado seu crescimento. Muito pelo contrário, afinal de contas, eram arrancados seus pêlos como criaturas talvez indesejáveis ou talvez inúteis. Não sei ao certo. Tenho tido dificuldades com as palavras, em nomear as coisas que sinto. Talvez Adão tenha tido a mesma dificuldade quando nomeou a primeira criatura. Se é que um dia existiu algum tipo de paraíso, alguém para nomear, antes dos cientistas, as criaturas, as plantas. Deve ser tedioso ver-se sozinho em um mundo ao lado de outra pessoa sem ter maiores opções. Acordar e ver os cabelos dela emaranhados, sentir o toque quente e ter consciência de que não houve escolha. Depois lavar o rosto, um desjejum sem ninguém para servir e assim ter a certeza de não estar sendo observado por outros quando se lança em um ato parecido com o de uma fera cravando dentes, língua e mãos em sua igual para misturar o suor dos corpos e por fim descansarem despidos à sombra de uma árvore ou quem sabe em um córrego, rio, mar e não esperar por ninguém, pois estão sós. Totalmente. Mesmo não sabendo dar nome a esse sentimento invadindo as entranhas, incomodando todas as vezes nas quais amanhece e repete ações até se cansar de nomear tantas coisas estúpidas, vassalas. Depois ficar exausto de olhar o próprio corpo e sentir-se incomodado com o vazio entre ele e essa outra pessoa que nem se quer faz as sobrancelhas. E elas crescem e invadem a testa e se parecem com as suas. Ou não me diga que as mulheres já arrancavam esses pêlos situados acima dos olhos naquela época, faziam o contorno, deixavam o sexo completamente nú e os pêlos pubianos entupindo o ralo do chuveiro. Mas não, nem se quer existia chuveiro naquele tempo ou lâminas tão precisas. Talvez esses personagens nunca existiram assim como o deus deles sempre os observando furnicar nas matas. Tenho duvidado de muitas coisas ultimamente e já não mais arranco esses poucos fios acima dos olhos, os deixo sempre escorrendo o suor para o lado sem interromper o curso natural das coisas. Agora fico minutos a tocar cada um com as pontas dos dedos procurando algum modo de me comunicar com eles, pedindo desculpas por tê-los tratado tão desatenciosamente chegando ao ponto de banir muitos para logo em seguida repetir o mesmo ato com seus descendentes. Agora deixo todos em paz para tocá-los suavemente dentro desse quarto repleto de lembranças e cabelos escondidos pelo chão. Talvez devesse nomear cada fio em homenagem aos que se foram. Mas são tantos... E eu sou somente uma.
Extraído do diário de Madame Underground

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